Bienvenue
Sexta-feira dia tres de novembro de 2006, sete horas da noite, Aeroporto Internacional Dulles – Washington DC. O encontro tinha data, hora e local marcado. Uma semana antes do encontro minhas preocupacoes se concentravam nos preparativos para a recepcao. Casa, roupas, limpeza, comida e transporte para os cinco membros da familia que estavam por chegar. Digamos que minhas paranoias para a perfeicao se acentuaram durante esta semana e o Julien, coitado, pagou por todas as consequencias.
Em devaneios bobos eu imaginava preparar tudo aquilo para minha familia. Imaginava como eu receberia minha maezinha. A cama que meu pedacinho de mim (Katia) dormiria e as historias que eu contaria para o meu pai – ai que saudade de nossas historias, pai! Diante disso tudo, os preparativos tinham um peso um pouco maior. O Julien, que nao via os pais por um ano, revesava a anciedade de receber a familia com as respostas mal educadas depois das tarefas que eu lhe designava.
Quando o dia chegara, o inevitavel aconteceu! Minha atencao dispersa pelos horarios e ultimos detalhes nao permitiu que prestasse atencao no meu nervosismo e anciedade, que aumentava de forma sorrateira. Ultima checagem feita: Meu quarto perfeito, os carros a disposicao, o apartamento do Julien intacto! Kelly pronta para o primeiro encontro, para a primeira impressao. Batom na bolsa para possiveis retoques, cabelo alinhado, calca jeans e blusa de frio para proteger do frio que comeca a incomodar. As unicas palavras em frances que decorara estava na ponta da lingua “Bonjour” e “Je m’appelle Kelly” e a timidez escondida no sorriso de canto de boca. “Pronta para receber seus sogros?” pergunta Julien em tom de piada. O fim desta frase ouvida pelo fone do celular teve efeitos que deveriam ser estudados pela ciencia. Meu estomago que nao denunciava sua existencia foi inundado por um friozinho que arrepiou a pele. Foi exatamente no fim desta frase que realizei que o momento chegara. Foi neste momento que meus receios e preocupacoes em conhece-los se tornou consciente e estava fora de controle. De acordo com os planos tracados, deveriamos estar no aeroporto por volta das seis da tarde. Mas planos sao planos e determinacao de horarios existe para ser quebrada e, por fim, atrasados.
Sei da reacao da minha mae quando ela ler este pequeno trecho sobre atrasos. Digamos que eu tenha um pequeno probleminha para cumprir horarios e/ou chegar na hora certa. Nao faco isso porque gosto de deixar pessoas esperando. Confesso que me esforco para evitar, uma vez que isso comecara a comprometer minha vida social. Porem, todavia, contudo, portanto o destino sempre coloca pequenas arapucas no meu caminho. Desta vez, meu estomago agia contra minha boa vontade de estar no horario.
No primeiro momento achei que estava passando mal pelo fato de ter comido pouco durante o dia. O Julien, jah impaciente, me levara a um restaurante barato e comprou Pai Thai. O que ele nao sabia eh que enquanto ele fazia o pedido do prato, eu estava no banheiro chamando um velho amigo, companheiro de momentos primordiais da minha vida: o Hugo. Este sim eh um grande companheiro, antes de vestibular, de campeonatos (nao muito importantes) de natacao, antes das inumeras partidas de volei, antes da apresentacao do meu projeto experimental e muitas outras ocasioes, ele nunca falta.
Depois de alguns minutos meu estomago se acalmou e a tremedeira passou. Mao na direcao, peh na estrada. Proxima parada: Dulles Airport.
Aeroporto – A chuva nao deu tregua nem por um minuto. O transito da rodovia praticamente parado tambem nao ajudou e meu estomago ainda se fazia presente. Recordo-me muito bem das palavras da minha mae quando eu sentia a mesma coisa em vespera de provas finais na escola: “Respira fundo e tenta nao pensar nisso”. Eu tentei mae, juro que tentei! Pensei primeiro na chuva, depois fiquei fantasiando com as luzes de freio de todos os carros da rodovia. Era um cenario bonito, mas ainda nao favorecia a corrida contra o relogio. Pensei no jornalismo, pensei em saudade e em frio. Tambem pensei sobre a politica no Brasil, mas meu estomago ficou mais alterado ainda, parecia que protestava. Mudei o pensamento, portanto. Refleti sobre passado, presente e futuro, como sempre o faco. Lembrei de minha infancia e fiquei fantasiando com a visita da minha familia. Recordacoes e fantasias que se misturavam e me faziam bem. Tudo esta imerso no baleh de luzes da highway 495. O Julien, que me observava atento pelo retrovisor do carro a frente, me ligou e checou se eu estava bem.
Sete e quinze da noite. Quinze minutos atrasados e estomago revoltado! Felizmente quando chegamos no aeroporto, os tao afamados Mercier estavam pegando as malas na esteira. Ufa! A tempo!